A pergunta correta sobre desigualdade e crescimento, por Jason Furman


A crença de que a desigualdade afeta o crescimento econômico está se consolidando entre os responsáveis ​​pelas políticas econômicas. Alguns argumentam energicamente que altos níveis de desigualdade podem impossibilitar o crescimento sustentado e podem até contribuir para recessões. Essa visão contrasta radicalmente com a visão tradicional de que existe uma compensação entre igualdade e crescimento e que uma maior desigualdade é o preço que deve ser pago pelo aumento da produção.

O que se perde na discussão, no entanto, é se algo disso é verdadeiramente relevante para a criação de políticas econômicas. Na minha opinião, não é. Se a desigualdade é boa ou ruim para o crescimento, os cientistas sociais devem continuar a se preocupar. Mas aqueles que lideram uma economia devem se dedicar a avaliar resultados e modos de distribuição e não a um enigma que nunca será totalmente resolvido.

Três resultados tornam esse repensar necessário. Em primeiro lugar, enquanto estudos recentes concluíram que níveis mais altos de desigualdade produzem menor crescimento a longo prazo, outros dados desafiaram essa suposição, com argumentos definitivos que não podem ser apoiados, em parte porque as diferentes causas e tipos de desigualdade provavelmente terão diferentes impactos no crescimento.

Em segundo lugar, grande parte da pesquisa enfoca o impacto da desigualdade no crescimento e não sobre a forma como certas políticas afetam o crescimento. O primeiro é de interesse para cientistas sociais e historiadores, mas o segundo é relevante para os responsáveis pelas políticas.

E, finalmente, os políticos geralmente defendem suas políticas em termos de como elas afetam a classe média ou os pobres, e não a média aritmética da renda em toda uma economia – o que dá igual peso a um aumento de US $ 1 na na renda de uma pessoa pobre e na de um multimilionário. Assim, mesmo que uma redução na desigualdade fosse ruim para o crescimento geral, ainda seria boa para o bem-estar social em um sentido relevante, se a situação de muitas famílias de classe média melhorasse.

A realidade é que as políticas econômicas no mundo real são matizadas e específicas para um lugar particular, o que faz a busca de uma única resposta à questão de como a desigualdade afeta o crescimento – ou quanto – um trabalho de Sísifo . Em vez de se preocuparem com a forma de equilibrar o crescimento e a desigualdade, os formuladores de políticas fariam melhor em se concentrar no impacto que as políticas têm na renda média e outros indicadores de bem-estar.

Políticas benéficas para todos – definidas como mecanismos de distribuição que produzem crescimento e reduzem a desigualdade ao mesmo tempo – são as mais fáceis de avaliar e as mais vantajosas para adotar. A educação é um exemplo clássico. As reformas que custam pouco ou não custam nada, como melhorar a qualidade do ensino primário e secundário, incentivam o crescimento ao mesmo tempo em que aliviam a desigualdade. Mesmo as reformas que mais custam – como a expansão da educação pré-escolar nos Estados Unidos – geram benefícios econômicos que superam em muito as perdas fiscais associadas ao seu financiamento.

Esses tipos de estratégias – que eu chamo políticas de “todas as coisas boas vão juntas” – podem ser aplicadas a outros setores da economia que hoje são pressionados por uma competição imperfeita. Políticas antitruste mais dinâmicas, ou maior apropriação dos dados pelos consumidores, podem fortalecer a concorrência e, no processo, aumentar a eficiência e melhorar a distribuição de renda.

Qualquer política que promova o crescimento ou reduza a desigualdade sem afetar negativamente a outra variável também pode ser classificada como vantajosa para todos. Uma reforma fiscal de negócios que seja neutra em termos de renda, por exemplo, poderia aumentar o nível de produção sem um impacto significativo na distribuição de renda.

É muito mais difícil avaliar as políticas que implicam uma compensação entre crescimento e desigualdade. A título de ilustração, considere os efeitos de uma redução hipotética de 10% nos impostos trabalhistas pagos por um imposto único seguindo um modelo neoclássico de crescimento Ramsey – um cenário que eu detalhei em um artigo recente para a série de Olivier Blanchard e Lawrence Summers em Repensar Macroeconomia. Este plano é bom para o crescimento, com um aumento na produção média de 1%. Mas, para entender como essa política funcionaria para os contribuintes, apliquei o cenário para a distribuição real da renda familiar dos EUA em 2010.

Quase todas as famílias no modelo experimentaram um aumento na receita antes de impostos. Mas os impostos aumentaram para dois terços das famílias. Para as famílias de renda média, a tributação mais alta foi compensada pelos ganhos, mas o lazer também caiu. Como conseqüência, a mudança de imposto deixou aproximadamente 60% das famílias em pior situação, mesmo que a renda média das famílias aumentasse, impulsionada por aumentos na parte superior da escala.

Esta análise não responde a questão de saber se esta política fiscal ilustrativa é uma boa idéia. Mas é provável que a maioria dos formuladores de políticas o rejeite se eles entendessem que o crescimento seria alcançado com maiores impostos para dois terços das famílias, o que tornaria muito mais difícil para a família média ganhar a mesma renda após impostos.

Os cientistas sociais devem continuar a perguntar se a desigualdade é boa ou ruim para o crescimento econômico. Mais pesquisas são necessárias nas variáveis ​​que afetam o crescimento, como a renda média. Os economistas também devem prestar menos atenção à desigualdade no agregado e mais a políticas específicas que podem aumentar ou reduzir a desigualdade.

Mas os formuladores de políticas têm prioridades diferentes dos economistas. Em vez de repensar a macroeconomia, os formuladores de políticas devem considerar se determinados objetivos de bem-estar social e distribuição podem ser alcançados através de medidas vantajosas para todos ou por meio de políticas que proporcionam recompensas lucrativas. A resposta pode estar em menos obsessão com os dados agregados e concentrar-se mais no impacto que as decisões políticas têm sobre as pessoas reais.

Fonte: GGN

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