100 anos da primeira Greve Geral brasileira

Em junho de 1917, décadas antes da consolidação das leis trabalhistas, o Brasil viveu sua primeira Greve Geral


A primeira Greve Geral brasileira aconteceu há exatos 100 anos. Tudo começou quando cerca de 400 operários da fábrica têxtil Cotonifício Crespi, em São Paulo, paralisaram totalmente suas atividades, pedindo melhores condições de trabalho.

Segundo Carolina Maria Ruy, jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical, “uma comissão de trabalhadores se organizou para pedir melhores condições, mas o dono da fábrica era muito rígido e explorador, não aceitou negociar”.

Na época, a jornada de trabalho girava em torno de 14 horas por dia, crianças trabalhavam nas oficinas dia e noite, não havia descanso semanal remunerado muito menos férias pagas.

A maioria dos trabalhadores era composta por imigrantes italianos e espanhóis, com histórico de “organização política” em seus países de origem, o que possibilitou a conscientização, formando um movimento espontâneo, segundo Carolina. Os funcionários da fábrica têxtil entraram em greve, e sofreram forte repressão policial.

Morte do operário José Martinez

O primeiro conflito entre operários e polícia aconteceu na porta da fábrica, no domingo, dia oito de julho, o operário José Martinez, 21 anos, acabou morto. “Foi o estopim para um movimento que parou São Paulo e se expandiu para outras cidades”, conta a jornalista.

A insatisfação se estendeu por entre as categorias e em pouco tempo a greve se alastrou por todo país. Em todas as capitais estaduais, paralisações pontuais dentro das maiores fábricas.

Segundo Carolina, as mobilizações chegam até Curitiba entre os dias 15 e 21 de julho, em uma a greve muito organizada e em grandes proporções para época. “Os ferroviários conseguiram parar as ferrovias, que eram o principal meio de transporte”, explica.

Uma das coisas que levou ao sucesso relativo da greve em 1917, foi o fato de que as fábricas não tinham estoques. Quando os operários pararam, não houve produtos nas lojas.  A partir de então, os empresários passaram a se preparar melhor para futuras greves, formando grandes estoques do qual podiam permanecer sem funcionar um certo período porque tinham produção para vender.

A Primeira Guerra Mundial

Entre 1914 e 1917, com a Primeira Guerra Mundial, o Brasil viveu saltou de recessão econômica a um superemprego, já que os produtos brasileiros passaram a substituir os importados e a serem exportados. Com o aumento da produção, as fábricas brasileiras, que tinham poucas máquinas, vindas do exterior, tiveram que usá-las por mais tempo. Isso significava que os operários passaram a trabalhar até 16 horas por dia, sem aumento de salário. A partir de 1915 as exportações afetaram também o abastecimento interno de alimentos, causando elevação dos preços dos poucos produtos disponíveis no mercado. Assim, embora o salário subisse, o custo de vida aumentava de forma desproporcional, deixando os trabalhadores em péssimas condições para sustentar suas famílias e fazendo com que mulheres e crianças precisassem trabalhar para complementar a renda doméstica.

Enfim, a negociação

O acordo só surgiu depois que a greve atingiu dimensões tais que não tinha mais como controlar o movimento. Em 16 de julho – mais de um mês após o início da paralisação no Cotonifício Crespi – um acordo entre autoridades, organizações trabalhistas e industriais, pôs fim à greve em São Paulo.

Carolina explica que a negociação foi mediada por jornalistas, que tiveram papel importante para conseguir negociação com os patrões, os operários conseguiram um aumento de salário de 20%, conta.

“Mas isso foi só no primeiro momento, logo depois, os patrões voltaram atrás, e voltaram ainda mais fortes com a repressão”, afirma a jornalista. Segundo ela, a grande vitória para os trabalhadores foi, na verdade, a organização política dos operários.

Mas o grande triunfo da Greve Geral foi, pela primeira vez, espantar as elites do país, que começaram a se dar conta de que a questão social urbana era grave e tinha que ser levada em conta.

A consolidação dos direitos

Apesar da assinatura dos acordos, a consolidação dos direitos só viria em 1943, durante o regime de Getúlio Vargas. “Os trabalhadores começam a ter mais direitos a partir do momento que eles conseguem se organizar para pedir por direitos”, explica a jornalista.

Antes da greve, algumas categorias conseguiam alguns benefícios, mas só veio a ser conquistados benefícios gerais com a formação dos sindicatos, a partir de 1930”, conta.

Um século divide as duas maiores greves brasileiras

Proporcionalmente, a Greve Geral de 2017 foi muito maior. “Naquela época, não se tinha quase nada de direitos, era uma selvageria. Os patrões tinham uma visão do proletariado como pessoas que nasceram para trabalhar, para servir”, explica a jornalista.

O grande avanço neste século foi  o desenvolvimento de todo um processo histórico de amadurecimento da consciência. “De modo geral não se vê mais o trabalhador como inferior, o nível de reivindicação que temos hoje é muito mais complexa, temos muito mais organização social e sindical”, afirma.

Diferente da Greve Geral de 2017, em 1917 a indústria vivia período de expansão

A Greve Geral de 2017 reflete a insegurança causada pelo desemprego e pela recessão econômica, com a grande rejeição da população frente às reformas trabalhistas e previdenciária proposta pelo governo. Já em 1917, a indústria brasileira crescia a passos largos, com os lucros das empresas chegando a duplicar anualmente. E as horas de trabalho seguiam a mesma proporção. No entanto, a prosperidade da burguesia industrial não se refletiu em melhorias nas condições de trabalho insalubres enfrentadas pelo operariado.

A insatisfação era mundial

Em fevereiro de 1917, meses antes da greve brasileira, mulheres que trabalhavam na indústria têxtil deram início a protestos e a uma paralisação que teria consequências ainda maiores do outro lado do mundo: a Revolução Russa.

Os protestos começaram contra a escassez de alimentos no país e rapidamente ganharam a adesão de outros trabalhadores e a simpatia das forças de segurança. Ao fim de uma semana, a monarquia russa chegava ao fim, abrindo caminho para a revolução comunista, no fim daquele ano.

Ideologias como o anarquismo e o socialismo marxista, que chegaram a São Paulo principalmente pelos imigrantes italianos, tiveram um papel importante na organização do movimento. Mas Carolina acredita que a greve representou o apogeu e declínio do movimento.

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