Para Diretor do Dieese, desemprego de 20 milhões de brasileiros representa uma perda sistêmica para o Brasil


O Instituto Humanitas Unisinos (IHU), da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, situada em São Leopoldo (RS), entrevistou o sociólogo, diretor técnico do Dieese e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) Clemente Ganz Lúcio sobre o desemprego no Brasil, que já atinge 20 milhões de brasileiros. Lúcio também fala sobre a atual situação da política nacional.

Acompanhe a entrevista abaixo.

Como o senhor está analisando o atual momento político e econômico brasileiro?

Em primeiro lugar, o Brasil enfrentou uma grave recessão econômica, que teve início em 2014, se agravou profundamente em 2015 e 2016, e tende a ter ainda um forte desdobramento em 2017. Esse é um período em que ainda veremos impactos severos da recessão, que poderá ser gradualmente superada a partir de 2017 ou poderá ser alargada, dependendo das medidas que forem tomadas.

Essa grave crise tem causas internas: as decisões macroeconômicas tomadas no final do primeiro e no início do segundo mandato da presidente Dilma agravaram severamente a crise econômica e jogaram o país em uma recessão. Mas, de outro lado, não necessariamente as medidas tomadas pelo presidente Temer serão capazes de recolocar o país na trajetória que vivemos entre 2004 e 2014, porque há severas restrições externas, dado que agora a própria eleição americana coloca dúvidas em qual será a estratégia econômica dos Estados Unidos. E, internamente, temos severas dificuldades para sustentar um crescimento econômico e vivemos um momento de aumento acentuado de desemprego e de arrocho salarial.

Portanto, a perda da massa salarial significa a redução de consumo, ou seja, as famílias têm endividamentos e assim ficam mais conservadoras com os gastos, e as empresas também estão endividadas e não observam um comportamento, no mercado interno e externo, que anime a produção. O Estado, por sua vez, que é o agente capaz de mobilizar a atividade econômica, também está travado desde 2012, 2013 e 2014, aprofundando a cada ano a diminuição dos gastos e dos investimentos. Essa é uma decisão trágica, porque esse gasto é fundamental para sustentar o nível de demanda da economia.

Essa redução dos gastos da economia como um todo também gera um impacto sobre o Estado, porque isso implica uma queda na receita, o que agrava, mais uma vez, a condição fiscal do Estado de tomar a iniciativa para sair da crise. Logo, os vetores e as locomotivas que podem puxar a economia brasileira estão todos com o freio de mão puxado. Essa recessão, que será longa, talvez seja uma das mais graves da história econômica moderna brasileira.

Qual é o quadro mais atualizado em relação ao desemprego hoje no país? É possível estimar quantas pessoas estão desempregadas? Como o senhor classifica a situação que se vive hoje em relação ao desemprego?

Nós observamos que o rebatimento da crise econômica para o mercado de trabalho representou um aumento muito forte, muito acentuado e muito rápido do desemprego. Nós saímos de uma taxa de 6% a 7% de desemprego aberto para uma taxa que está encostando em 12%, isto é, houve um aumento, em mais ou menos dois anos, de quase cinco milhões de pessoas em situação de desemprego aberto.

Além disso, no Brasil existe um outro contingente de pessoas que se encontram ocupadas pelo emprego precário – que nós chamamos de desemprego oculto pelo trabalho precário -, que são as pessoas que fazem “bicos” para sobreviver, mas continuam precisando muito do emprego. Existe também o que chamamos de desemprego por desalento, que são pessoas que desistiram de procurar emprego, porque não encontram posto de trabalho, mas declaram que precisam de um trabalho para viver.

 Se somarmos essas duas condições, é provável que o volume de desempregados, incluindo o desempregado aberto, seja de 18 a 20 milhões de brasileiros. É um contingente muito grande, uma elevação muito rápida e isso tem um efeito extremamente perverso sobre a condição de vida dessas pessoas e famílias, e, evidentemente, um rebatimento perverso para toda a economia.

Essas pessoas que estão endividadas não conseguem saldar suas dívidas, e isso tem um efeito econômico muito ruim porque as pessoas desempregadas e sem renda diminuem seu padrão de consumo e, com isso, diminuem a demanda para a economia, e isso tudo forma um ciclo destrutivo, que é a característica da própria recessão. Ou seja, essa dinâmica agrava o problema econômico, motivo pelo qual a sensação é a de que a “queda no fundo do poço” continua cada vez mais funda, na expectativa de em algum momento achar o fundo do poço.

O que seria uma saída para reverter esse quadro?

A população desempregada só terá um posto de trabalho quando a economia voltar a crescer. Portanto, a condição para estancar o aumento do desemprego é a economia diminuir o nível de queda da atividade, isto é, a recessão tem que ser estancada. Mas isso demanda um tempo.

Portanto, os efeitos de uma retomada do crescimento econômico e do emprego não são rápidos, porque os empregos permanentes e estruturais dependem de uma reorganização da atividade econômica, que é dada por uma série de fatores. Por exemplo, é necessário que o Banco Central sinalize para uma substantiva redução da taxa de juros, e isso rebate no setor financeiro com uma taxa de juros e de empréstimo muito menor. Os bancos teriam que oferecer créditos, teriam que renegociar as dívidas com as famílias e com as empresas, o governo deveria alocar muitos recursos na retomada de investimento.

Mas, no momento, ninguém está tomando inciativas para animar a economia. O governo tem dito que a “fada da confiança” irá animar a economia, mas como não acredito em fadas, não acredito que essas medidas que o governo anuncia, dizendo que está recuperando a confiança da economia, vão gerar a retomada do crescimento.

Empresário não acredita em fada; empresário acredita em recurso investido e em demanda efetiva acontecendo. Evidente que essas inciativas do governo tendem, em médio prazo, a gerar novos equilíbrios na economia, mas não necessariamente equilíbrios que vão retomar o crescimento econômico.

Que efeitos essa onda de desemprego pode gerar, nos próximos anos, para as novas gerações que irão ingressar no mercado de trabalho?

Tem várias dimensões do impacto. Primeiro, tem o impacto objetivo, que é o desemprego geral, uma situação socioeconômica extremamente perversa para as famílias que estão desempregadas. Essas pessoas perdem investimentos, perdem patrimônio, às vezes perdem a casa, estão endividadas, muitas vezes perdem o investimento na sua formação porque não encontram mais um emprego. Tem pessoas que investiram a vida toda para trabalhar na indústria do calçado, mas como não encontram mais emprego nesse ramo, começam a trabalhar de porteiro de prédio. Essa mudança de emprego é uma perda pessoal e também social.

 Em um período de longo desemprego e de recessão, a tendência é aumentar a informalidade, portanto há uma tendência de aumentar as ocupações sem proteção social. Isso impacta, negativamente, por exemplo, no financiamento da Previdência Social: essas pessoas que não têm um emprego protegido terão dificuldades com relação à aposentadoria no futuro.

Outra dimensão importante a ser considerada é que a recessão desestrutura os investimentos em formação. Por exemplo, os engenheiros estão sendo desmobilizados, os cursos estão perdendo a atratividade, porque as pessoas começam a pensar que o país não precisará de engenheiros, porque não vai haver um projeto de desenvolvimento. Então, uma crise como a que vivemos gera um impacto grande na formação e na expectativa da juventude que está chegando ao mercado de trabalho, e gera ainda uma desesperança para muitos que já investiram, estão formados e não encontram empregos nas suas áreas de formação. Então, há um processo psicossocial com esses jovens que investiram na sua formação e que não encontram postos no mercado de trabalho brasileiro.

A perda é sistêmica, ou seja, na medida em que a recessão gera uma destruição dos postos de trabalho, portanto, do emprego, na verdade o que estamos destruindo é a capacidade da sociedade de gerar renda e riqueza. Desse modo, os rebatimentos são de muitas dimensões e, inclusive, na arrecadação de impostos. Se o Estado arrecada impostos, ele pode investir em educação, saúde, segurança e assim por diante; se nós não consumimos, não temos emprego, não pagamos impostos, o Estado diminui sua capacidade de fazer as políticas, de contratar servidores, de realizar os serviços e produzir os bens que deveria produzir. Isso, evidentemente, agrava a condição de vida desses trabalhadores. Esse circuito perverso é um circuito que se reproduz em várias instâncias, de forma a desestruturar a dimensão econômica que sustenta a vida em uma sociedade.

Como o senhor vê a proposta de alguns sindicatos de aderirem a uma greve geral neste momento? Como está a capacidade da sociedade de se rearticular e reagir?

Há uma dificuldade estrutural e um desgaste geral com os governos no Brasil e no mundo. Em outros países, a população está se decidindo pela alternância de governos, e, em geral, onde tem um governo de centro-esquerda, está se indo para a direita. Isso porque em geral os conservadores fazem um discurso mais fácil, que tende a gerar uma reação, e acaba-se criando condições para medidas conservadoras, contra “aqueles que querem tomar o emprego”, contra o imigrante, como mostra a eleição do Trump, nos EUA. Trata-se de uma política do ódio ao outro, da eliminação do outro porque ele é identificado como a causa do problema que alguns estão enfrentando.

A sociedade toda é atingida por esse tipo de postura, e no caso brasileiro isso veio agravado pelas medidas tomadas nos últimos dez anos, de melhoria do aparato estatal para combater a corrupção. Essa melhoria acabou resultando em inúmeras ações que o Estado brasileiro passou a fazer para coibir a corrupção. Esses instrumentos revelam perversidades enormes, e precisam de aperfeiçoamentos porque ainda não estão prontos. Mas, de outro lado, isso tem um impacto severo porque a própria operação Lava Jato se desdobra em cima do principal setor econômico do Brasil, que são as empreiteiras.

Ações como essas também geram muitos rebatimentos, inclusive preconceitos, homofobia, e tudo isso acaba sendo utilizado para mobilizar uma série de posicionamentos mais conservadores e para retrair os movimentos, que não têm capacidade de reagir ao que acontece. Esses mesmos movimentos estavam mais acomodados com o governo que, por sua vez, não atuava para destruí-los, mas trabalhava numa tentativa de negociação através do Congresso. Mas para reverter todas essas situação levará muito tempo.

Vislumbra a possibilidade de superar essa desesperança a partir da eleição de novos governos à esquerda? Que tipo de rearticulação política vislumbra para o Brasil, considerando o resultado das eleições municipais? O que seria uma via para reagir a esse momento?

Os movimentos precisam ter continuidade numa nova situação, usando de novos instrumentos, observando a juventude que está atuando nesse cenário de crise, com novas formas de pensar o mundo; tudo isso precisa ser incorporado. E não podemos deixar de pensar que as pessoas que pensam e governam o país hoje, se formaram nos anos 70, mas a moçada que está nos movimentos tem outra cabeça. Portanto, é importante que os movimentos consigam dar conta de incorporar essas pessoas, de refazer uma posição crítica dos movimentos e dos partidos, porque há uma insatisfação da sociedade com os resultados que os partidos entregam à sociedade.

Não creio que a mudança que está em curso ocorrerá no curto prazo, nem creio que se dará no curto prazo uma guinada à direita – onde uma visão neoliberal e o sistema financeiro coordenam as políticas, e as posições conservadoras ganham predominância na sociedade, como estão ganhando na Europa, na Alemanha e nos EUA.

Temos que trabalhar para que essa virada à direita não se transforme em uma tragédia, porque no rastro do ódio surgem tragédias que demoram décadas para serem superadas. Considerando tudo isso, é necessário fazer um trabalho de mobilização, do jeito que for possível, às vezes num cenário micro, às vezes com mobilizações maiores, como fazem agora os jovens secundaristas. Todas essas mobilizações são modelos de movimentos do amanhã, ou seja, são tentativas de fazer algo diferente. Algumas vão fracassar, outras terão sucesso. Também precisamos continuar tendo uma ação institucional forte, intervindo no Congresso, lutando pela democracia, acompanhando a votação e a análise do STF em relação à terceirização etc. Ou seja, temos que fazer o trabalho de mobilização, de debate público e de intervenção institucional, e teremos que fazer tudo isso num ambiente de maior adversidade.

É uma época em que o nosso time vai ter muita derrota, mas teremos que entrar em campo e jogar para tentar vitórias. E, às vezes, um empate tem que ser comemorado como uma vitória. Tivemos uma vitória no adiamento da votação do STF em relação à terceirização. Essa vitória pontual exigirá uma intervenção no Congresso para negociar uma solução no Legislativo, porque se não tivermos uma solução no Legislativo, podemos ter uma decisão no Supremo, que poderá ser uma tragédia.

 

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