O que os trabalhadores esperam de Dilma?


Mais diálogo, controle da inflação e desemprego baixo são compromissos que a presidenta não poderá deixar de cumprir

“Vitória mostrou que, apesar da insatisfação com a corrupção e com o baixo crescimento econômico do País, trabalhadores querem continuar sendo valorizados”

Antônio Augusto de Queiroz – Analista do Diap

Os trabalhadores, de fato, ajudaram a eleger Dilma e a força da militância foi decisiva no resultado apertado de 2014. No entanto, a classe trabalhadora não está satisfeita com o atual panorama. Frente a uma economia que demonstra muitas dificuldades em se recuperar, uma única certeza paira no ar: alguém terá que pagar a conta da falta de crescimento do país. Só a mobilização garantirá que não sejam os trabalhadores.

O que Dilma representa

A vitória de Dilma significa que, apesar da insatisfação com a corrupção e com o baixo crescimento econômico do País, os trabalhadores querem continuar sendo valorizados.

O analista político e diretor do DIAP, Antônio Augusto de Queiroz, afirma que o Brasil tem um plano de governo e uma proposta econômica que vem desde 2006, que privilegia os trabalhadores e deve seguir da mesma forma. “Esse é um projeto de modernização do capitalismo brasileiro. É a criação e manutenção de um grande mercado consumidor de massas baseado em emprego e salário”, afirma o analista.

Por que Dilma ganhou?

TAXA DE DESEMPREGO

As taxas de desemprego são as menores da história do Brasil. O governo Lula recebeu o país com uma taxa de desemprego anual de 12%. Desde lá, o desemprego no Brasil vem caindo. Dilma recebeu o desemprego em 6,7%, uma taxa mais baixa, já na época, do que a de países como EUA (9,7%), Reino Unido (8,1%) e França (9,2%) – dados de dezembro de 2010.

Para a satisfação dos trabalhadores, a taxa de desemprego continuou caindo, chegando a 4,7% em outubro de 2014 – o que pode ser considerada uma taxa de pleno emprego. O Brasil, no momento, possui uma taxa de desemprego menor do que a de países de referência internacional, como Alemanha (5%), Austrália (6,2%), Canadá (6,5%) e Suécia (7,5%) – dados de outubro de 2014.

Semelhante conquista demonstra a solidez do país para enfrentar crises econômicas sem que a classe trabalhadora seja diretamente afetada. A economia se mantém circulando a partir do mercado de consumo criado por milhões de brasileiros que permanecem continuamente empregados.

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DISTRIBUIÇÃO DE RENDA

A melhor forma de distribuição de renda é a garantia de aumentos acima da inflação do salário mínimo e dos salários das categorias de trabalhadores. Essa política também foi herdada do governo Lula e obteve continuidade no governo Dilma.

Em 2001, o salário mínimo era de R$ 180,00. No início do governo Dilma era R$ 540,00. Durante os quatro anos de governo da presidente ele continuou a subir anualmente, alcançando os atuais R$ 724,00.

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Além do salário mínimo, dados do Dieese indicam que mais de 90% das categorias obtiveram acordos salariais acima da inflação nos últimos anos.

INDICADORES ECONÔMICOS DE BEM ESTAR

O bem estar social sofre discussões nos meios de pesquisa a respeito de como deve ser medido. No entanto, diversos indicadores demonstram que economicamente uma grande parcela de brasileiros obteve uma ascensão social-econômica. Mais pessoas andando de carro, mais pessoas viajando de avião, mais estudantes nas universidades, mais brasileiros com casa própria.

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“Os indicadores econômicos fizeram os brasileiros analisarem o risco de mudar e perder o que se alcançou e optarem pela manutenção da mesma política econômica, que incentiva o aumento real do salário mínimo, o emprego e financia o consumo no país”, explica o professor e doutor em Ciência Política, Adriano Codato.

PROGRAMAS SOCIAIS

 

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Os programas sociais garantiram milhões de votos a Dilma. Se assim o fizeram, é porque a milhões de brasileiros alcançam. Os programas não são somente voltados à distribuição de renda, mas também ao desenvolvimento do conhecimento, da capacitação e profissionalização dos brasileiros.

No total, são aproximadamente 13,9 milhões de brasileiros atingidos pelos programas sociais do governo Dilma – somente no período de 2011 a 2014.

PRONATEC

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Foi criado para que os jovens que não têm condições financeiras para ingressar em um curso técnico possam se preparar para o mercado de trabalho. O programa oferece cursos técnicos de até dois anos de duração, para quem já terminou ou está cursando o ensino médio. Está disponível em escolas públicas estaduais e institutos federais de educação e em serviços nacionais de aprendizagem como o Senai ou Senac.

Como participar:

As vagas do Pronatec são destinadas para os alunos que se enquadram em qualquer um dos seguintes casos:

– Participante de programas do Governo Federal inscritos no CadÚnico (ex. Bolsa Família);

– Trabalhador Rural;

– Desempregado;

– Aluno de escola pública que está cursando o Ensino Médio;

Para mais informações ou para fazer parte do programa, acesse pronatec.mec.gov.br .

PROUNI

Programa educacional do governo que concede bolsas de estudo integrais e parciais (50%) em instituições privadas de ensino superior e cursos de graduação. A seleção é feita com base nas notas no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio).

Benefício:

– Para estudantes com renda bruta familiar inferior a 1,5 salários mínimos, a bolsa é integral.

– Para estudantes com renda bruta familiar de até 3 salários mínimos, a bolsa é de 50%.

Como participar:

Para participar do ProUni, o estudante deve ter obtido pelo menos 450 pontos na média das notas do ENEM e nota superior a zero na redação. Além disso, os interessados devem enquadrar-se em um dos casos:

– Ter cursado o ensino médio completo em escolas públicas ou em escolas privadas como bolsista integral;

– Ser pessoa com deficiência;

– Ser professor da rede pública de ensino;

As inscrições podem ser realizadas exclusivamente pela internet, através do site http://siteprouni.mec.gov.br/

Ciência sem Fronteiras

É um programa que busca incentivar o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, fornecendo aos estudantes intercâmbios e bolsas de estudo no exterior.

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Benefício:

Para o brasileiro que vai para o exterior, as opções são doutorado-sanduíche (meta de 24.600 bolsas); doutorado pleno (9.790); pós-doutorado (11.560); graduação-sanduíche (27.100); treinamento de especialista no exterior em empresa (700).

Como participar:

Para pedir uma bolsa de doutorado ou pós-doutorado no exterior, o candidato deve ser aprovado pela universidade ou instituição estrangeira (o contato pode ser feito por meio dos parceiros do Ciência sem Fronteiras) e ter domínio da língua estrangeira.

Para se informar a respeito das requisições específicas de cada área, ligue para 0800 616161.

FIES

O FIES é um programa que permite que o aluno financie seus estudos, pagando 50% da mensalidade de cursos ou instituições privadas de ensino.  Durante o curso, o participante paga um valor de até R$ 50 a cada três meses. Quando se forma, entra no período de carência de 18 meses, para depois começar a pagar o Fies, a juros baixíssimos.

Como participar:

O único requerimento para participar é que o aluno tenha feito o Enem. A inscrição no Fies pode ser feita através do site http://sisfiesportal.mec.gov.br

INGLÊS SEM FRONTEIRAS

Brasil e EUA

Projeto do governo que visa incentivar o aprendizado do inglês, bem como melhorar o ensino de idiomas estrangeiros nas universidades do País.

Benefício: Muito próximo ao Ciência sem Fronteiras, o Inglês sem Fronteiras permite com que os estudantes universitários que pretendem realizar intercâmbio tenham acesso a um curso online de inglês. Este curso tem cinco níveis, e depende do conhecimento do aluno.

Como participar:

Para participar, o aluno deve se enquadrar em uma das situações:

– Aluno de graduação de instituição pública de ensino superior;

– Aluno de graduação de instituição privada de ensino superior, desde que tenha obtido mais de 600 pontos no ENEM, nos exames realizados a partir de 2009;

– Aluno de programa de pós-graduação stricto sensu (Mestrado e Doutorado) recomendado pela CAPES;

MINHA CASA, MINHA VIDA

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Realizar o sonho da casa própria para as famílias brasileiras com renda mensal menor de R$ 5.000,00.

Benefício: O programa tem quatro maneiras diferentes de ajudar no financiamento e estas condições mudam conforme sua faixa de renda.

Os benefícios são:

– Pagar uma parte do imóvel para você;

– Pagar uma parte da entrada do financiamento (ajuda chamada de subsídio);

– Reduzir o valor do seguro que é cobrado em um financiamento habitacional;

– Oferecer taxas de juros menores, o que diminui os valores das parcelas e do financiamento.

Como participar:

Para realizar sua inscrição no Minha Casa, Minha Vida, o interessado não pode ter nenhum imóvel financiado e nem mesmo quitado em seu nome, não podendo também ter utilizado o FGTS para financiamento de imóvel durante 5 anos, e não poderá ter restrição de crédito.

Os documentos necessários estão disponíveis no site http://www.minhacasaminhavidainscricao.com/

De posse dos documentos necessários, o interessado deve ir até uma unidade da Caixa e efetuar a sua inscrição no Minha Casa, Minha Vida.

O que precisa mudar?

Os brasileiros que votaram contra e a favor de Dilma nas últimas eleições exigem mudanças nas políticas implementadas pelo governo. Há pontos de consenso que não podem aguardar mais. Os trabalhadores terão papel decisivo nesse momento histórico, onde novos avanços devem ocorrer, preservando o que já foi conquistado; e crises e embates têm que ser enfrentados, sem que haja prejuízo para a classe trabalhadora.

POLÍTICA INDUSTRIAL

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O crescimento da produção da indústria vem tendo um mal desempenho há vários meses. Na maioria dos meses de 2014 foi negativo e esse histórico vem desde 2011.

O professor Adriano Codato, da UFPR, afirma que o que não está dando certo é a política industrial. “Tem de fato aumento de consumo. Tem aumento de bem estar. Mas a política industrial tem problema nos juros, o que conduz a uma desindustrialização do país”, explica o doutor em Ciência Política.

O analista aponta que a política de desoneração de bens duráveis tem um limite. O erro consiste na falta de apoio à indústria pesada, que pauta a exportação de bens industriais bem acabados. “Há uma insistência no consumo e uma falta de política industrial consistente”, finaliza o professor.

MAIS DIÁLOGO

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A falta de diálogo da Presidência da República com os diferentes setores da sociedade foi uma das principais críticas durante os quatro anos do governo Dilma. Mídia, comércio, indústrias, sindicatos e sociedade civil demonstraram insatisfação com as imposições do governo, negando ou justificando resultados econômicos insatisfatórios sem oferecer propostas de mudanças ou ao menos uma abertura para novas possibilidades.

O diretor do DIAP, Antônio Augusto de Queiroz, afirma que não são propriamente as decisões políticas que são errôneas. “O que está errado é a falta die diálogo com quem forma opinião no Brasil. Setores que podem criar facilidades ou dificuldades, como mercado, sociedade e parlamento”, explica o analista político.

No seu primeiro discurso após a confirmação da reeleição, a presidente Dilma Roussef prometeu aumentar o diálogo e colocá-lo dentro das suas prioridades. Não havia muita alternativa, após mais de 51 milhões de brasileiros, no segundo turno, votarem em seu opositor, Aécio Neves – sendo significativa a parcela, sabe-se, daqueles que votaram na oposição mais por insatisfação com o PT do que por crença no discurso do PSDB.

EDUCAÇÃO DE QUALIDADE EM TODOS OS NÍVEIS

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O governo do PT obteve grandes avanços no ensino técnico e superior. O governo de Dilma, seguindo os passos do seu antecessor, criou 208 escolas técnicas no país e com o Pronatec financiou 6 milhões de alunos em cursos profissionalizantes de ampla variedade. Os alunos do ensino superior continuam aumentando.

Esses dados amplamente promovidos pela campanha de Dilma, que representam importantes avanços para o país, não demonstram as sérias dificuldades que a educação brasileira ainda possui. Creches, escolas primárias e de segundo grau são insuficientes em diversas regiões do Brasil.

O analfabetismo permanece na casa dos 8,3%. Professores que atuam em instituições de ensino públicas possuem elevadíssimas taxas de insatisfação, em grande parte devido ao ambiente de trabalho altamente estressante e à desvalorização social e econômica a que os profissionais da educação há décadas são submetidos.

A educação do Brasil precisa mudar efetivamente, desde a sua base. Isso inclui responsabilidades municipais e estaduais, contudo, o governo federal não pode furtar-se à responsabilidade que possui para com todos os seus cidadãos. O atual modelo educacional do país não funciona há muito tempo. É hora de mudar e apenas mais verba não será suficiente. É necessária uma mudança de paradigmas e uma política educacional ativa em todos os níveis de ensino.

CONCENTRAÇÃO DE RENDA

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Apesar da renda média do brasileiro continuar crescendo, o país estacionou na redução da desigualdade social em 2011. Os mais ricos aumentaram a renda ainda mais que os pobres.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2013, o chamado Índice Gini, que varia de 0 a 1, piorou de 0,496 em 2012 para a 0,498 em 2013, o primeiro aumento desde pelo menos 2001. O Gini é usado no mundo todo para medir a desigualdade e aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos.

O Brasil ainda possui uma das distribuições de renda mais injustas do mundo. No Brasil, os 1% mais ricos ganham 100 vezes mais do que os 10% mais pobres. Dilma terá que encarar esse desafio de frente para continuar obtendo o apoio dos trabalhadores.

REFORMA POLÍTICA

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A reforma política que retira o dinheiro das empresas do financiamento eleitoral, apoiada há anos pela Força Sindical e pelo Eleições Limpas, ganhou o clamor de toda a nação. No entanto, com a corrupção pela qual o Congresso Nacional está submerso, a reforma política ainda está longe de ocorrer em termos concretos.

“A reforma só vai acontecer com a mobilização dos brasileiros e a pressão em cima do Congresso Nacional”, avalia Sérgio Butka, presidente da Força Sindical do Paraná. O movimento Eleições Limpas, do qual faz parte a Força Sindical do Paraná, propõe o fim do financiamento eleitoral por empresas, pois esse é o início de toda a corrupção no sistema político brasileiro. As doações para campanhas eleitorais passariam a ter um limite de
R$ 700 por pessoa.

CRISE ECONÔMICA MUNDIAL

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A crise de 2008 ainda distribui seus resultados ao redor do mundo. Todas as potências mundiais estão obtendo sérias dificuldades no seu crescimento econômico. O Brasil durante os principais anos da crise conseguiu passar relativamente ileso, contudo, o aumento do endividamento dos brasileiros, a baixa produção industrial, o inexpressivo crescimento do PIB e o retorno da inflação mostram que o Brasil deve encarar o presente momento aceitando fazer parte da crise e buscando soluções a isso.

“Os trabalhadores brasileiros não querem saber se a culpa é da crise mundial ou local. O que importa é que tenhamos empregos, bons salários, aumentos reais e direitos conquistados mantidos”, afirma o presidente da Força Sindical, Sérgio Butka.

PRESSÃO DA MÍDIA E DAS ELITES

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Os grandes patrões, contra os quais a classe trabalhadora trava décadas de disputas, jogaram duro nas últimas eleições e as pressões em cima do governo não devem parar. Elites sociais que durante décadas exploraram a classe trabalhadora estão cada vez mais receosas de perderem o poder que possuem.

A mídia também faz parte dessa turma. O enfrentamento ao governo federal foi constante durante os quatro anos de governo, durante todo o período eleitoral e não tem porque diminuir durante os próximos quatro anos.

O Senador Roberto Requião faz duras críticas ao sistema midiático do país. “O fato do mesmo grupo empresarial controlar jornais, revistas, rádios, televisões, internet, não favorece a monopolização da informação e o consequente manejo da opinião pública? Não terá sido por isso que países com instituições democráticas sólidas e uma longuíssima estabilidade democrática como os Estados Unidos e a Inglaterra proíbem a propriedade privada cruzada dos meios de comunicação?”, questiona o parlamentar.

CORRUPÇÃO

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A bancada conservadora no Congresso Nacional ficou ainda maior depois das eleições de 2014. A corrupção em todos os partidos e nas estatais será um grande desafio para os próximos anos de governo da presidente Dilma. Os cidadãos brasileiros não se contentarão com a resposta padrão “estamos investigando”, por mais que seja verdadeira.

A corrupção tem sido a principal arma da oposição e continuará sendo utilizada durante o próximo mandato, a fim de desestabilizar o governo e deslegitimar medidas importantes para a população brasileira, que “eventualmente” não interessem aos donos do grande capital.

ÓDIO DAS ELITES E DA CLASSE MÉDIA

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O ódio disseminado contra o PT nas eleições é um desafio importante com o qual a presidenta terá que conviver, embora as instituições estejam sólidas e a governabilidade tenda a se manter, independente das manifestações contrárias ao partido que está no poder.

Ao repudiar a corrupção, os  trabalhadores devem permanecer atentos para náo incorrer no erro de exaltar medidas completamente retrógradas e temerárias, como o apoio à intervenção militar ou definições da agenda conservadora, que vão completamente contra os interesses da classe trabalhadora.

RESGATE DA CONFIANÇA DO SETOR PRODUTIVO

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Um dos maiores desafios que Dilma possui para o seu segundo mandato é o clima de pessimismo que se espalhou pelo Brasil, a partir dos resultados econômicos de baixa expressão e da caída da produção industrial.

A confiança do setor produtivo precisa ser reconquistada a partir de demonstrações claras do governo de medidas que incentivem a volta do crescimento industrial e não apenas o financiamento de um grande mercado de consumo, pois o Brasil parece já haver chegado ao seu limite.

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